O despertador toca cedo na casa do seo Marcos Canola, de 57 anos, em Araçatuba. Ele toma o café da manhã, se apronta e antes de cruzar a porta de casa para o trabalho, se despede com um beijo da Cris, sua companheira há 35 anos. No entanto, a jornada diária deste morador foge completamente do comum: aposentado da profissão de pintor de motocicletas, ele agora se autodenomina, com orgulho, um “plantador de árvores”.
A rotina de trabalho começa pra valer quando ele troca o carro de passeio pela picape. O veículo vive carregado com ferramentas essenciais e mudas de variadas espécies prontas para o solo. Durante o trajeto pelas ruas da cidade, até o local do plantio, o aposentado aponta sem parar para as calçadas e canteiros. O gesto orgulhoso tem motivo: em oito anos de dedicação voluntária, o homem contabiliza a impressionante marca de mais de 5 mil árvores espalhadas por todo o município.
A ação em cada parada é rápida e mais parece uma aula prática de jardinagem, longe de se resumir ao simples ato de abrir um buraco na terra. O processo envolve o uso de carvão para eliminar fungos e bactérias das raízes, além da aplicação de calcário para corrigir a acidez do solo. Para garantir o desenvolvimento rápido, ele utiliza esterco de galinha forte e adubo químico.
Todo o trabalho comunitário é realizado sem qualquer tipo de remuneração ou aceitação de doações em dinheiro. A justificativa do idealizador é simples: o projeto é movido puramente pelo coração e pelo desejo de transformar o espaço urbano. Quando alguém tenta oferecer para colaborar financeiramente, a resposta de Canola é padronizada e direta. O voluntário recusa as notas e pede, categoricamente, o apoio por meio da entrega exclusiva de novas mudas e insumos para o plantio.
O investimento para manter o projeto vivo sai diretamente da aposentadoria do idealizador. Entre espécies compradas com recursos próprios e mudas recebidas por doação, Canola calcula um gasto pessoal superior a R$ 72 mil ao longo de quase uma década. Os resultados desse trabalho são visíveis: numa avenida local que hoje abriga 80 pés de Ipê plantados por ele, além de uma área rural que já soma 300 árvores.
Mais do que embelezar a paisagem urbana e melhorar a qualidade do ar, o trabalho do seo Canola gera impactos imediatos na fauna local, abrigando ninhos de aves como o beija-flor. O objetivo final do aposentado, contudo, mira as próximas gerações que usufruirão da sombra e dos frutos no futuro. Ao criar e consolidar uma profissão que antes não existia, o plantador espera deixar um legado duradouro para que a população lembre de seu nome com gratidão daqui a 30 anos.