Antes de chegar ao primeiro mata-mata de uma Copa do Mundo como técnico de seleção, Carlo Ancelotti precisou abandonar algumas convicções. O time do Brasil que enfrenta o Japão nesta segunda-feira, às 14h (de Brasília), em Houston, é resultado de um processo de ajustes forçados por lesões, testes e mudanças de rota durante o ciclo. E justamente agora, no jogo mais importante até aqui, ele repetirá pela primeira vez a escalação em 16 partidas.
Quando assumiu a seleção, Ancelotti tinha uma ideia clara do que queria construir. Sem enxergar um meio campo capaz de concentrar a criação, apostou em um modelo com quatro defensores, dois meio campistas e quatro atacantes. O plano era simples: potencializar o principal talento do elenco, Vini Jr.
Ao longo dos meses, o treinador experimentou diferentes formas de fazer isso. O atacante atuou aberto pela esquerda, centralizado e até como referência. A configuração que mais deu resultado foi ao lado de Matheus Cunha, com liberdade para flutuar pelo lado esquerdo, sem a obrigação de permanecer como centroavante.
QUEBRANDO TABU
Contra os japoneses, ele tenta quebrar um tabu neste Mundial. O Japão foi vazado três vezes: todas pelo seu lado esquerdo, ou seja, do lado oposto de onde Vini joga. Ou seja, a partida pode ser interessante para Rayan, que foi o último a ganhar lugar no time com a lesão de Raphinha.
A grande mudança estrutural, no entanto, aconteceu já às vésperas da Copa. Depois da atuação abaixo do esperado contra o Panamá, quando o Brasil perdeu o controle do setor central no penúltimo teste antes da Copa, Ancelotti ouviu lideranças do elenco e aceitou abandonar a estrutura que havia defendido desde sua chegada. Pela primeira vez, adotou um sistema com três meio campistas e testou no amistoso contra o Egito, o último antes da estreia.
Lucas Paquetá ganhou espaço como terceiro homem do setor e Igor Thiago apareceu como centroavante de área. A experiência, porém, durou pouco. A atuação contra Marrocos preocupou a comissão técnica e causou desconforto dentro do próprio vestiário.
A resposta veio rapidamente. Paquetá passou a atuar mais pelo lado esquerdo, Matheus Cunha retomou a vaga no ataque, Danilo assumiu definitivamente a lateral e o Brasil encontrou uma configuração mais equilibrada. Com Bruno Guimarães aberto pela direita do meio e Paquetá pela esquerda, Douglas passou a ter mais liberdade para atacar e o resultado foram boas vitórias contra Haiti e Escócia, apesar de em ambas o comando admitir que ainda precisava ver evolução.
JAPÃO CRIA MENOS
Eles terão papel fundamental na partida desta segunda. O Japão cria menos, mas é extremamente vertical quando recupera a posse. A preocupação da comissão técnica é impedir que os contra ataques encontrem espaços antes que a linha defensiva brasileira consiga se reorganizar.
As duas seleções marcaram sete gols na fase de grupos, média de 2,3 por partida, mas chegaram ao mesmo número de maneiras completamente diferentes. O Brasil precisou de 41 finalizações para marcar sete vezes, enquanto o Japão fez os mesmos sete gols com apenas 28 chutes. A taxa de conversão brasileira é de aproximadamente 17%, contra cerca de 25% dos japoneses.
A equipe de Ancelotti finaliza muito mais. São 13,7 chutes por jogo contra 9,3 do Japão. Também acerta o alvo quase o dobro de vezes, com média de 6,3 finalizações no gol por partida, diante de 3,3 dos asiáticos.
O perfil ofensivo também muda. O Brasil constrói a maioria de suas oportunidades dentro da área, com média de dez finalizações por jogo em posições próximas ao gol. O Japão chega apenas a cinco. Em compensação, quase metade das conclusões japonesas acontece de fora da área, enquanto a seleção brasileira recorre muito menos aos chutes de longa distância.
* O texto é de Danilo Lavieri, Paulo Vinicius Coelho (PVC), Pedro Lopes e Thiago Rabelo. Do UOL, em Houston (EUA)
