Quem passa pelo calçadão comercial de Araçatuba, seja da cidade ou da região, já deve ter ficado curioso e se perguntado alguma vez quem é aquela senhorinha que está sempre sentada em um banquinho tocando um acordeon, praticamente todos os dias da semana, de manhã até o final da tarde.
A artista de rua Clarice Mantovani tem 80 anos e há 25 anos anima os visitantes e lojistas do comércio de rua tocando e cantando os antigos sucessos da música sertaneja de raiz.
Ela chega bem cedinho até o trecho da Rua Princesa Isabel, antes de as lojas abrirem, e vai embora por volta das seis da tarde. Um parente a traz e depois busca. Ao longo do dia ela conta com apoio de lojistas que trabalham perto da artista. “Eu levo água, pergunto se quer usar o banheiro”, conta a gerente de vendas Cícera Cardoso. A gerente lembra da vez que conseguiu impedir um homem de levar a caixinha com o dinheiro de dona Clarice.
Difícil quem não passa olhando ou até decide fazer uma imagem da artista. Alguns chegam a parar por alguns instantes para escutá-la tocando e até pedem música. Normalmente quem pede as canções são pessoas de mais idade.
Dona Clarice mora em Araçatuba. Tem uma filha adulta e uma neta ainda criança. Ela perdeu a visão aos 16 anos por conta de uma doença no nervo ótico. Aprendeu a tocar o instrumento mais ou menos nesta época. O objetivo era usar a música para ter independência e ganhar dinheiro suficiente para ajudar a se manter.
“Eu queria aprender um instrumento que fosse chamativo e que me ajudasse a ter independência, de ganhar um dinheirinho sem precisar ficar abordando e pedindo para as pessoas”, falou. Ela diz que em seis meses já estava tocando.
Perguntada se estar quase todos os dias lá no calçadão de manhã e de tarde, não cansava, ela responde que prefere ficar tocando lá do que em casa.
“Eu fico em casa, fico aborrecida, começo a pensar besteira, as pessoas que já foram embora da família”, diz. “Principalmente a minha irmã, que tocava violão comigo”.
A artista garante que pretende ficar ainda por muito tempo tocando no calçadão da cidade, alegrando os visitantes e quem trabalha por lá. “Até quando Deus quiser, Deus que manda na minha vida”, falou.